Mulheres e música: muito além de um microfone e um violão

por Nicole Patrício

Encontrar textos que tratem de mulheres na música, sem que parte deles tenha um parágrafo ou uma frase clichê, é algo tortuoso. A postura do tipo “olha como elas também sabem cantar”, que se vê em alguns cantos por aí, acaba subestimando, mesmo que indiretamente, o talento de cada uma – isso porque nem mencionei o infeliz comentário “ela parece um homem tocando”.

Se, para uma mulher que canta e compõe, ainda há aquela admiração de pessoa “de outro planeta” ou coisa parecida, isso triplica quando se fala de mulheres técnicas de som e roadies. Mas, mesmo com os tantos “isso é pesado demais pra você carregar” ou “é com você mesmo que a gente passa o som?”, muitas delas estão lá, carregando amplificadores e regulando o volume de cada instrumento pro então show de mais tarde.

Conversei com algumas mulheres que trabalham nessas frentes dentro do meio musical e o espírito “faça você mesma” que elas têm, para uma menina que cresceu vendo outras meninas em programas de calouros na TV, achando que aquela era a única maneira de se dar bem na música (e o quanto isso é relativo, não é mesmo?), é incrivelmente inspirador. Daqui para frente, você vai conhecer um pouco da história de Muriel Curi, baterista da Labirinto e sócia do Dissenso Studio, e de Olivia Genesi, musicista e engenheira de som.

Muriel Curi (por Dani Pacheco)

Foto: Dani Pacheco

“Eu comecei a ter interesse pelo áudio na adolescência. Lá pelos 15 anos, comecei a tocar bateria, e por conta disso, também comecei a pesquisar como gravar minha banda, já que eu estava no meio punk/hardcore, onde o do-it-yourself sempre me guiou em muitas coisas. Também sempre tive muita curiosidade em aprender coisas novas que poderiam me ser úteis. O tempo passou, eu e meu marido [Erick Cruxen, guitarrista da Labirinto] começamos a trabalhar com estúdio no início dos anos 2000. Todos os nossos discos, nós mesmos gravamos, e fomos aprendendo muito ao longo dos anos. Acho que nunca tive problemas pelo fato de ser uma mulher em um mundo tão masculino – seja tocando bateria ou operando uma mesa de som. Anos atrás, já presenciei algumas caretas do tipo “ih, é uma menina na bateria” antes de show, ou “pode chamar o técnico de som pra começarmos a gravação”, mas ok, sempre soube conviver com isso. Quando comecei a estudar áudio e acústica, claro, eu era a única garota da turma… Certamente percebo que, hoje em dia, há muito mais mulheres nesse meio e tudo acaba ficando um pouquinho mais fácil. Por ter mais mulheres (e muito, muito boas no que fazem), o preconceito acaba ganhando menos espaço e a tendência é essa situação melhorar sempre. Atualmente, depois de alguns bons anos, eu e o Erick somos sócios no Dissenso Studio, que tem uma estrutura muito completa para gravações de todo tipo e finalidade. É bacana que, no estúdio, também conseguimos abrir espaço para garotas que estão começando… É sempre bom ver mais meninas entrando nesse mundo ainda tão masculino”.

– Muriel Curi
Clique aqui para ouvir o trabalho dela com o Labirinto na sua plataforma preferida

Olivia Genesi

Foto: Reprodução Facebook

“Meu primeiro estúdio foi no final dos anos 90, nos fundos de uma agência de propaganda. Eu tinha dois sócios, também músicos, e nossa proposta era que todos pudessem produzir trilhas com a mesma desenvoltura. Começamos usando um programa chamado Session, que era o “vovô” do Pro Tools. Tinha apenas 4 canais.

Em 2003, montei meu próprio estúdio, já com interface Digi001 e Pro Tools, para trabalhar apenas com música (trilhas para cinema, teatro e produção dos meus CDs e de outros artistas). Desde então, trabalho como técnica de gravação (captação de áudio), operadora de Pro Tools (edição, mixagem e masterização) e produtora musical.

Hoje, ainda, são poucas as mulheres que põem a mão na massa, mas, a facilidade que a tecnologia oferece e o desejo de ter autonomia na própria carreira musical têm formado excelentes profissionais. No meu caso, acredito que o diferencial está no fato de eu também ser musicista. Faz toda a diferença você ter a compreensão musical do áudio que está microfonando, captando, editando, inserindo efeitos e mixando. Sempre enfrentei preconceito por esta ser uma área de pouquíssima atuação feminina, e, apesar do preconceito terminar quando começa o trabalho, existe ainda, lamentavelmente, muita resistência”.

– Olivia Genesi
Clique aqui para ouvir o trabalho dela em sua plataforma preferida

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