Ressonância: RISCO

artistasseloriscoArtistas do selo no palco do Centro Cultural São Paulo, no show de lançamento da coletânea “RISCO #01”, 2016. Foto: Fernando Banzi

por David Dines

No terceiro texto da série Ressonância, que compartilha um pouco da visão, estratégia e funcionamento de alguns dos principais selos independentes do Brasil, o blog da Tratore apresenta o trabalho do selo paulistano RISCO, cuja plataforma de suporte na difusão do trabalho de artistas independentes levou à parceria com artistas como O Terno, Charlie e os Marretas, Luiza Lian e Mustache e os Apaches.

O RISCO surgiu em 2013, a partir da comunidade que se estabeleceu em torno do estúdio Canoa, comandado por Gui Jesus Toledo. “O Canoa sou só eu (como engenheiro de áudio), instalado nos fundos de uma casa na qual o Guilherme Giraldi morava”, conta. A partir da gravação do primeiro álbum do Charlie e os Marretas, da qual Giraldi é baixista, outros músicos que caminhavam juntos e dividiam palcos e integrantes começaram a frequentar o espaço. Em pouco tempo, O Terno, Memórias de um Caramujo e outros projetos também começaram a frequentar e gravar no estúdio.

Como uma forma de valorizar os trabalhos fonográficos desenvolvidos pelos artistas, Jesus e Giraldi decidiram montar um selo para viabilizar a prensagem desses títulos em vinil de forma totalmente independente, com os custos de produção divididos com as bandas. O primeiro lançamento do RISCO, em 2014, foi “66”, álbum de estreia d’O Terno. A ação logo repercutiu na mídia impressa e especializada, ganhando destaque em reportagens veiculadas na Folha de São Paulo, na revista Brasileiros e no jornal britânico The Guardian.

No mesmo ano, também foram lançados o compacto “Tic Tac”, também d’O Terno, e o álbum “Cheio de Gente”, do Memórias de um Caramujo. Em 2015, Luiza Lian e Caio Falcão e um Bando lançaram seus primeiros álbuns pelo selo. O elenco também passou a incluir as bandas Mustache e os Apaches (o álbum “Time is Monkey” foi lançado no mesmo ano) e Música de Selvagem. Em 2016, foram lançados os novos de Charlie e os Marretas, O Terno, Grand Bazaar e Pedro Pastoriz, além da primeira coletânea do selo, “RISCO #01”, em que os artistas interpretaram canções uns dos outros. O elenco atual de artistas também inclui Os Mojo Workers e Noite Torta.

Além do vinil, hoje o RISCO também distribui os títulos de seus artistas em CD e formatos digitais, com o apoio da Tratore. Fora a produção dos discos por meio da divisão dos custos, alguns lançamentos também passaram a contar com o apoio de campanhas de financiamento coletivo. “As bandas têm recorrido ao crowdfunding devido à possibilidade de fazer uma ‘pré-venda’ de vários produtos e, assim, já reaver parte do dinheiro investido. É uma oportunidade de já mostrar um pouco do trabalho q está por vir; e claro, buscar uma pequena garantia financeira em torno do projeto”, explica Gui Jesus. O RISCO também lançou em 2016 seu primeiro projeto apoiado por um edital: “Melhor Do Que Parece”, d’O Terno, saiu por meio do programa Natura Musical, cujos processos de inscrição e parceria foram conduzidos diretamente pela produção da banda.

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Gui Jesus Toledo, um dos idealizadores do selo e do estúdio Canoa. Foto: Fernando Banzi.

Com o tempo, as funções de gestão do selo passaram a ser divididas entre Gui Jesus Toledo, Guilherme Giraldi e João Bagdadi, que uniu forças com os idealizadores em 2015. O RISCO se envolve diretamente no planejamento de seus lançamentos, avaliando e contextualizando a produção dos trabalhos de acordo com o universo de cada artista, o momento da carreira e a possibilidade de expansão do público.

Segundo Gui Jesus Toledo, o selo também se dedica hoje a outros desdobramentos do lançamento de um álbum, ainda que o fonograma seja a prioridade. “Nesse ano começamos a trabalhar mais fortemente o merchandising das bandas como um todo. Pensamos juntos qual seria o produto interessante para cada banda (camiseta, adesivo, poster, ecobag, etc.) e participamos desde a produção até a gestão financeira e de estoque”, explica. O RISCO também oferece facilidades para a produção de materiais audiovisuais, ações de relacionamento, gestão de prensagens, loja online, assessoria de comunicação e um braço dedicado à parte de booking. “João e Gui Giraldi agenciam e cuidam da produção da Luiza Lian e do Charlie e os Marretas. Também estamos preparando uma série de outros serviços para 2017”, conta Jesus.

Os criadores do RISCO veem o atual momento do mercado musical brasileiro de forma positiva, mas reservando alguma cautela. “É uma sensação dúbia: ao passo que enxergamos diversas iniciativas muito relevantes e empolgantes feitas por gente nova, sem vícios, acreditamos ainda ter muita coisa errada nesse mercado, muita inversão de valores. Mas temos de ser otimistas e acreditar que a maré ‘boa’ vença esse status quo”, conta Gui Jesus. Para o idealizador do selo, o Brasil vive hoje um dos melhores momentos da produção musical independente, mas ainda é necessário expandir e consolidar um público que assimile esse conteúdo. “Também precisamos ter maior oferta de profissionais em toda a cadeia produtiva para absorver a quantidade de música boa que está sendo produzida. O interesse em trabalhar nessa cadeia tem aumentado bastante e os espaços para se fomentar, discutir e formar também, com diversas feiras de música pipocando pelo Brasil. O caminho é longo, mas apesar do momento turbulento no país, há perpectivas de crescimento e fortalecimento do mercado”, afirma.

O que um selo precisa ser, hoje em dia, na opinião do RISCO? “Um selo não pode nunca parar. Se parar, ficou para trás. Então tem que seguir lançando material, fomentando os agentes próximos, os artistas, pensar projetos, parcerias, inovar, repensar o mercado… Basicamente a música nunca acaba, tem sempre alguma ‘coisinha’ a mais para fazer, e nós estamos sempre correndo atrás dessa ‘coisinha’. E, para começar tudo isso, tem que ter muito amor à música. Acreditar nela e naquilo que faz, e principalmente, nos músicos”, conclui Gui Jesus Toledo.

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