Série Arredores: Agui Rocca e a produção executiva na música

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por David Dines

Na série de entrevistas Arredores, conversamos com profissionais respeitados que trabalham ao redor da música, criando circunstâncias e possibilidades para que os artistas se apresentem da melhor forma possível. Nosso segundo convidado é o produtor executivo Agui Rocca.

Administrador da carreira do músico André Abujamra, Rocca começou sua trajetória na produção nos anos 1980, com Os Mulheres Negras. Desde então também trabalhou com Karnak, Otto, Vexame e Premê, além de incursões na produção de videoclipes. Confira a conversa:


Agui, como você começou na produção? Qual é a sua formação e como tem sido sua trajetória profissional?
Comecei em produção em 1980, logo que entrei na faculdade de Propaganda e Marketing, na ESPM. Meu primeiro trabalho foi como redator de programas e de anúncios de rádio, depois achei que seria legal ir atrás de outras áreas que tivessem conexão e me abrissem outras portas. Passei por um estágio de rádio e TV numa grande agência de publicidade, de lá fui parar numa pequena produtora de vídeo, virei assistente de fotógrafo em estúdio. Fiz de tudo um pouco até que entrei para trabalhar com Os Mulheres Negras como sócio e produtor.
Quando terminou Os Mulheres, fui trabalhar numa temporada de shows com a banda Vexame e com o Premê. Como o André Abujamra era o baixista do Vexame, acabamos seguindo juntos. Um tempo após nasceu o Karnak e uma produtora de trilhas para publicidade e TV chamada JOB. Na paralela, nesse período também fui sócio do Fernando Yazbek na produtora de shows e editora musical Spin. Após alguns anos de correria e três discos do Karnak, fui trabalhar com o Otto. Lançamos os álbuns “Samba pra Burro” e “Condom Black” pela gravadora Trama.
No ano 2000, foi época de transição e vontade de mudar de rumo. Comecei a trabalhar como produtor executivo numa produtora de filmes comerciais e clipes, chamada AD studio, por onde permaneci por 15 anos. Em 2012 Os Mulheres Negras voltaram à ativa e, em 2016, junto com André Abujamra, assumi a parte executiva do projeto “Omindá”.

Em que momento você começou a trabalhar com Os Mulheres Negras e André Abujamra?
Com Os Mulheres foi em 1985/86. Eu já era amigo do Maurício Pereira e ele me apresentou o André, na época recém-chegado de um intercâmbio nos Estados Unidos. Foi quando larguei um emprego na rádio Transamérica e comecei a produzir o grupo. Meu primeiro show com eles foi no Teatro Mambembe, que existia na Rua Paraíso, em São Paulo. Era uma época sem celular, sem internet, sem fax, sem computador, sem rede social. Dá para imaginar? Me virava bem na datilografia.

Tanto Os Mulheres Negras quanto o André Abujamra em carreira solo se fizeram conhecidos por estratégias fora do comum: enviar jornalzinho para fãs, tocar em palcos de contextos muito diferentes e criar espetáculos com elementos teatrais e circenses, por exemplo. Esses estímulos vêm dos artistas? Que desafios extras esses projetos colocam em relação à execução de estratégias mais tradicionais?
Deixa ver se consigo explicar esse processo… Os Mulheres Negras sempre foram uma banda fora da caixa. Se hoje soa estranho, imagina em 1985, num ambiente rock ‘n roll. Dois caras de capa e chapéu coco de palha, sax, guitarra e sampler, tocando e misturando qualquer estilo musical que viesse à cabeça. Até hoje os dois improvisam muito e rola uma química tocando junto que é muito rara no palco. Minha função ali era dar suporte para viabilizar o que fosse possível. Como éramos uma empresa/sociedade, todo lucro e despesa dividíamos em três. Isso ajudava a dar sustento financeiro para poder arriscar novos lugares, arriscar ideias, etc.
Teve jornalzinho para fãs, lançar disco em happy hour num McDonald’s, botar ovo no palco no meio do show, programas de show em formato de aviãozinho de papel, trabalhar com mímicos e malabaristas em cena, concurso de dança, gráficos para a ordem do show, rotoscópio no sax, cenários com instalações artísticas e performances. Muita coisa nascia espontaneamente, às vezes durante a passagem de som, outras depois de acaloradas discussões a três. Às vezes o Pena Schmidt (produtor musical) participava também desses brainstorms. Aliás, o jornalzinho 20.908 era feito num computador ancestral do Pena.

800px-stk_001974_281101580829429Os Mulheres Negras em show no Teatro Oficina (São Paulo), em 2013. Foto: Zé Carlos Barretta

Quais são as principais atividades que realiza hoje no campo da produção, junto a músicos?
Hoje administro a carreira do André Abujamra. Produzi o projeto “Omindá”, distribuído pela Tratore. Foram várias viagens internacionais, filmagens e o lançamento do disco. Estamos agora rodando com o show e lançando dois filmes na Mostra de Cinema Internacional de São Paulo. Um documentário contando sobre o projeto com a participação dos 13 artistas internacionais e um showfilme do lançamento que fizemos em março deste ano no Auditório Ibirapuera. A estreia será no dia 29 de outubro, na sala 1 do Cine Itaú Unibanco Augusta.

Geralmente, como é composta a equipe dos artistas com que você trabalha?
Varia muito e depende do momento da carreira. Hoje, com o André, eu faço a direção de produção. Temos um coordenador de palco, produtor e técnicos para cuidar dos shows. A assessoria de imprensa é do Vicente Negrão. A assessoria jurídica é do sempre parceiro Fernando Yazbek. Fora isso, tem o apoio de uma pessoa que faz as artes, edita vídeos e co-dirigiu o documentário, que é o Mauro Nascimento. A Tratore distribui e ajuda a colocar na rua o nosso trabalho.
Eu cuido de toda a carreira do André. Agenda, shows, participações especiais com outros artistas, outros projetos paralelos (por exemplo, o Karnak), trilhas para filmes, publicidade e contratos dele como ator. Temos uma relação de confiança de mais de 30 anos trabalhando juntos, isso ajuda muito.

Que conhecimentos e habilidades são importantes de desenvolver ao trabalhar com produção?
Um produtor existe para ser o suporte do artista, então muitas vezes trabalha 24 horas em função de uma ideia, de um projeto. Tem que se envolver mesmo e para se envolver você precisa gostar do trabalho. Muitas vezes eu me perguntava porque não tentava um artista menos alternativo, mais comercial e a resposta era “Poxa, eu vou ter que gastar muito tempo da minha vida com isso. Se eu não gostar da música, da postura do artista, como vou poder vender esse projeto?”. Esse sempre foi o ponto principal para mim. Acreditar no artista que você representa.
Outras características que considero positivas para um produtor é ser pró-ativo, não se acomodar nunca, ser curioso com a vida e sempre ir atrás de novidades mesmo que não sejam de sua área. Eu acho muito bom que um produtor saiba tanto de palco, quanto de realidade virtual. Que saiba do show business, mas também se interesse pelas intervenções urbanas em sua cidade. Num determinado ponto, as coisas se cruzam e ele vai ter um olhar diferente e saber identificar as oportunidades.

Em algum momento vocês fizeram projetos com incentivo público ou outras formas de patrocínio? Se sim, como foi?
Quando iniciamos Os Mulheres em 1985, não existia esse tipo de incentivo, era tudo no risco. Bilheteria, algumas vezes cachês. Era outra realidade. As coisas foram se modificando lentamente e nos anos 2000 surgiram mais incentivos. Eu particularmente acho que processo de editais é lento, burocrático e muitas vezes os parâmetros que não se encaixam dentro do que você precisa fazer. Mas não critico quem se usa desse meio, pois sei que é muito sério e dá muito trabalho fazer tudo como se deve. Atualmente trabalhamos com uma parceria tentando buscar patrocínios para uma tour nacional de “Omindá” em 2019.

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André Abujamra no show de estreia de “Omindá”, no Auditório Ibirapuera (São Paulo). Foto: Divulgação

Que ações um artista pode fazer em um lançamento que você considera mais importantes?
Buscar bons parceiros para distribuir seus trabalhos, tanto física quanto digitalmente. Fazer um bom planejamento com seu produtor, considerando prazos reais de fábricas de discos, prazos para subir em plataformas digitais, masterização, arte (sempre, mas sempre atrasa), edições musicais, ISRC, vídeos. Não programe nada sem antes ter esses prazos e parceiros acertados. Muitas vezes os artistas passam por um período longo de estúdio e, na pressa de colocar o trabalho na rua, deixam pontas soltas que depois dá trabalho pra consertar.

Quais são as principais expectativas erradas que um artista pode ter em relação ao trabalho de um produtor? Que dicas você daria para outros artistas e produtores em relação a isso?
Uma expectativa errada é o artista ver o produtor como alguém mágico que vai fazer a carreira dele andar e conseguir muitos shows. Se tem algo para dar errado é começar a olhar por aí. Parece estranho, pois é o que todo mundo quer ter. Mas é ilusão.
O artista e produtor têm que ser parceiros e trabalharem juntos para as coisas darem certo. Um artista tem que ter relevância suficiente para que o contratante o veja como alguém capaz de trazer prestígio e bilheteria a sua casa. O mesmo raciocínio vale para uma empresa que vai patrocinar. Eles sempre vão preferir um artista que dê retorno de imagem, que tenha visibilidade.
Como se consegue isso? Se eu soubesse uma fórmula de como fazer sucesso, eu escreveria um livro e daria palestras. Só sei que tem que se empenhar muito. Horas de dedicação do artista e produtor, muita confiança e parceria para tocar avante os projetos. Tem que saber encarar um show para 20 pessoas com a mesma naturalidade de um show para mil. O esforço é o mesmo.

O que um artista e sua equipe sempre precisam ter em perspectiva no desenvolvimento de uma carreira?
Artista e equipe têm que ter foco. Uma carreira se faz a cada passo, a cada palco. Na atenção aos fãs, ao bom relacionamento com a imprensa, na qualidade do que você coloca nos vídeos, na atenção ao público nas redes sociais. Nada consistente surge do dia para a noite. E não esqueça de comemorar as pequenas e grandes conquistas, pois no dia seguinte começa tudo de novo.

Como alguém que quer ser produtor executivo, ou gerente de projetos ligado à música, pode começar o seu caminho?
Um bom produtor já vem com essa vontade de enfrentar desafios. Então, encontrando uma oportunidade no meio musical, siga em frente. Pode ser através de um artista novo que esteja precisando de produção ou participando de uma equipe já formada. Estudar negócios, cursos de music business (tem vários módulos interessantes na BM&A), participar de congressos, feiras de música, festivais. Fico feliz em ver hoje uma geração de produtores muito competentes. Assim como tem muito artista com uma ótima visão do seu negócio. A gente, como produtor, não pode esperar que alguém venha abrir uma porta e te convidar a sentar na mesa do jantar. Esse é o o nosso job.

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