O que é um NFT e como pode ser utilizado por músicos?

“Coelhék”, obra audiovisual vendida como NFT, de autoria de André Abujamra e Uno de Oliveira

por David Dines

Na última semana, artistas como Kings of Leon, Ozuna, Grimes e André Abujamra foram notícia na imprensa musical ao comercializarem trabalhos artísticos como NFTs. Mas o que seria um NFT? Como músicos podem se utilizar desse tipo de ativo digital? Saiba mais:


O NFT funciona como um certificado de autenticidade e propriedade sobre itens digitais de colecionador, que podem ser imagens, vídeos, memes, gifs, videoclipes, tuítes e toda forma de conteúdo cuja origem consiga ser identificada. A sigla deriva do inglês para “token não fungível”, termo que define objetos que não podem ser trocados por outros iguais – como, por exemplo, uma cédula de qualquer moeda, que pode ser trocada por outra exatamente igual, representando o mesmo valor. Dessa maneira, publicações virtuais que antes não possuíam valor monetário devido à ampla possibilidade de cópia e reprodução na internet agora podem ser atreladas a uma assinatura digital – o NFT – que as tornam exclusivas, como obras de arte.

A operação do NFT é registrada em blockchain, o mesmo tipo de sistema digital que possibilita o funcionamento das chamadas criptomoedas – formas de dinheiro digital que não são regulamentadas por governos, mas que podem ser compradas a partir de moedas como o dólar e o real. Por meio do blockchain, realizam-se de maneira rastreável e transparente várias operações financeiras e comerciais, emulando em redes autônomas o que seriam instâncias equivalentes às transações bancárias e da bolsa de valores. Dentro do blockchain, um NFT não pode ser destruído ou dividido, e sempre pode ser rastreado até o criador original. 

Um usuário que detenha o NFT de determinado item pode vender em criptomoedas o seu “direito de propriedade” para outra pessoa. A comercialização de um NFT acontece em plataformas específicas que atuam como galerias de arte, a partir da lógica de leilão. Isso não implica necessariamente que o item vendido tenha que ter acesso restrito ou exclusivo – o NFT de um tuíte, por exemplo, permanece tendo valor desde que o criador e o Twitter o mantenham no ar.

Um NFT também pode ser aplicado para arquivos digitais que tenham correspondentes físicos, mas como um direito à parte. Esse entendimento de valor permite a realização de ações curiosas como a do artista visual Banksy, que transformou o grafite “Morons” em um arquivo digital com NFT e depois queimou a tela original, avaliada em 95 mil euros. Como o NFT diz respeito apenas aos direitos digitais, esses permanecem válidos ainda que o correspondente físico não exista mais.

As imagens e obras audiovisuais exclusivas têm sido os principais ativos usados como NFTs pelos músicos. Por exemplo, o cantor porto-riquenho Ozuna lançou a série “small bears”, composta por cinco animações que utilizam seu mascote, como NFTs à venda na plataforma Niftygateway, que aceita criptomoedas e cartões de crédito. A canadense Grimes também disponibilizou na mesma plataforma uma série de dez desenhos, que foram arrematados por US$ 5,2 milhões. Mike Shinoda, integrante do Linkin Park, também colocou à venda na plataforma Zora dez unidades de uma animação de 75 segundos, que utiliza um trecho de uma nova canção. No Brasil, André Abujamra realizou uma parceria musical com o artista plástico Uno de Oliveira na animação “Coelhék”, que foi vendida como NFT a uma pessoa do Canadá por meio da plataforma Makerspace.

Na última semana, a banda estadunidense Kings of Leon tornou-se o primeiro grupo a vender “um álbum” como NFT na plataforma Yellowheart, por meio de três tipos de token. Em um deles, é possível ter acesso a uma capa especial do álbum. Em outro, ganha-se o acesso a diversas artes digitais que têm relação com o álbum. No terceiro, limitado a 18 titulares, ganha-se o acesso a quatro assentos VIP em todas as próximas turnês da banda, com traslado até o local do show e quatro bolsas com todos os itens de merchandising em cada ocasião. Os áudios não fazem parte do NFT, e estão disponíveis em todas as plataformas de streaming.

Ao transpor para o ambiente digital uma lógica de exclusividade, os NFTs também trazem consigo uma série de questões, como a especulação financeira sobre obras, pagamento de direitos autorais, roubos de conteúdos de acesso público e, sobretudo, o impacto ambiental, já que cada rede de blockchain demanda um grande gasto de energia para funcionamento contínuo dos computadores do sistema. Estima-se, por exemplo, que cada transação usando a rede Ethereum gaste o equivalente ao consumo de energia de uma casa por um dia inteiro, o que leva à preocupação de diversos representantes do setor com a expansão dessa forma de negócio.

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4 comentários sobre “O que é um NFT e como pode ser utilizado por músicos?

    • Tratore disse:

      Oi, Ricardo! Existem NFTs de áudio sendo vendidos em algumas plataformas, mas no caso de fonogramas comercialmente disponíveis ainda não há exemplos notórios para observar. No entanto, existem algumas questões técnicas complexas a levar em conta. A venda de um fonograma comercialmente disponível como NFT possivelmente implicaria na transferência de toda propriedade sobre a gravação para o comprador, incluindo titularidade na distribuição digital e os direitos de produtor fonográfico no ISRC. Mas poderiam existir outros desdobramentos legais, que impactariam diferentes práticas estabelecidas dentro do ecossistema da música.

    • Tratore disse:

      Você precisa cadastrar-se em uma plataforma que comercialize NFTs, como os exemplos citados no texto (NiftyGateway, Zora, Makerspace e várias outras). Elas fazem a escolha dos artistas que poderão comercializar em seus marketplaces e, uma vez aprovado, você poderá subir seu trabalho como NFT por lá.
      De toda maneira, é importante que sua obra e seu fonograma estejam devidamente registrados em uma sociedade vinculada ao ECAD, e que você faça as alterações necessárias sobre propriedade caso haja uma venda como NFT.

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